Status protético e alterações bucais dos pacientes do Programa Interdisciplinar de Geriatria e Gerontologia da UFF

Como publicado  na Revista Brasileira de Odontologia, Rio de Janeiro, v. 60, n. 5, p. 310-313, 2003
 
RESUMO
O presente trabalho verificou a necessidade do uso e de troca de próteses (parcial e total) de 103 pacientes com idade superior a 60 anos do Programa Interdisciplinar de Geriatria e Gerontologia da UFF. No que diz respeito à necessidade de utilização de próteses tanto parciais como totais, verificou-se que as mulheres em relação aos homens tinham a menor probabilidade de permanecerem sem os dentes (p<0,05). Entretanto, com relação à necessidade de troca das próteses, não foi observada diferença estatisticamente entre os sexos. As alterações vasculares da cavidade bucal foram significantes nos pacientes com a faixa etária maior.
Palavras-chave: idoso, odontogeriatria, status protético
 
INTRODUÇÃO
Segundo os dados levantados em 1998, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nas últimas décadas, o número de pessoas com mais de 60 anos tem aumentado consideravelmente nos países da América Latina. No ano de 1999, no Brasil, em uma população total de 165.371.493, o número de idosos era de 12.792.256 (7,73%). Para o ano 2020, há uma expectativa de aumento ainda mais acentuado, pois estima-se uma população idosa de 25.322.608 (12,01%), com um crescimento relativo de 4,28% em 21 anos (6). Destarte, a necessidade de tratamento Odontológico, provavelmente acompanhará esse fenômeno.
Vale ressaltar, que a abordagem do paciente idoso difere daquela feita para a população em geral devido as mudanças fisiológicas durante o processo de envelhecimento, a presença de doenças sistêmicas e crônicas e a alta incidência de deficiências físicas e mentais neste segmento populacional. Por esta razão, o conhecimento específico, as atitudes e habilidades especialmente desenvolvidas para o atendimento aos indivíduos deste grupo etário são necessários para o profissional da área de saúde (12).
É válido lembrar que a dentição de pacientes idosos, já experimentou décadas de doenças bucais, assim como procedimentos periodontais e restauradores, que de certa forma conduziram a alterações pulpares, perirradiculares e dos tecidos circundantes.
Alguns fatores devem ser elucidados como possíveis justificativas dos idosos  não procurarem tratamento odontológico. Dentre eles primeiramente tem-se a acessibilidade ao consultório que dependerá do nível de dependência do paciente, que poderá ou não estar realizando as atividades de vida diária e suas habilidades desenvolvidas anteriormente. Outro fator é a acomodação por parte dos idosos, em acreditar que com o passar da idade, não precisam mais tratar os dentes. Finalmente, é válido mencionar que os recursos financeiros, na maioria das vezes, contam como uma irrisória aposentadoria. 
DEMERVAL & MOJON (4) verificaram a relação da capacidade mastigatória, estado nutricional, “status” protético e fluxo salivar em idosos institucionalizados. Observaram que a má nutrição estava associada à perda ou carência de apetite.  Concluíram que a perda do índice de massa corporal (IMC) estava associada a próteses de baixa qualidade.
Neste aspecto, LOCKER,LEAKE, LEE et al. (7) relataram que num grupo de 907 idosos, 60.5% tinham comparecido ao consultório odontológico no ano de realização do estudo, onde 17% usavam dentadura e 72% possuíam dentes. Dos 357 que não visitaram o dentista, naquele ano, 48% declararam que não perceberam nada de anormal, e 20% afirmaram não ter condições financeiras para a realização do tratamento. Noventa e quatro por cento dos edentados e 26% dos pacientes que tinham dentes, aclararam que procuraram o dentista somente em caso de dor ou quando surgia qualquer outro tipo de problema. Os autores concluíram que pacientes portadores de dentaduras, que moravam no subúrbio, apresentando baixa renda, sem cobertura de seguro saúde, foram os que menos visitaram o dentista regularmente.
O presente trabalho objetivou conhecer o estado das próteses dentárias dos pacientes geriátricos e a necessidade da sua utilização por estes indivíduos. Concomitantemente, avaliaram-se os achados bucais, idade da primeira prótese dentária e o arrependimento das extrações de todos os elementos dentários. 
 
MATERIAL E MÉTODO
Realizou-se o exame clínico intrabucal de 103 pacientes com idade superior a 60 anos do Programa Interdisciplinar de Geriatria e Gerontologia da UFF que participaram voluntariamente do presente estudo. 
O exame intrabucal foi realizado, estando o paciente sentado e o examinador, munido de lanterna para exame e abaixadores de língua. Tal exame visou coletar dados quanto a: achados bucais (varizes linguais, candidose oral, hiperplasia fibrosa inflamatória, secura bucal, queilite, alterações vasculares, torus, hipertrofia de glândula, lesão eritematosa, lesão leucoplásica e lesão pigmentada), necessidade de utilização de prótese para pacientes que não utilizavam qualquer tipo de prótese, necessidade de troca da prótese parcial e/ou total, dependendo de cada caso - “status protético” (próteses fraturadas, mal adaptadas, estado precário de conservação, entre outros).
As lesões encontradas nos tecidos mole foram levantadas através de um diagnóstico clínico (anamnese e exame físico).
Em seguida, com auxílio do programa estatístico EPI INFO 6.04 D, executou-se o teste não paramétrico de Mann-Whitney, tendo como nível crítico de significância 5%.
 
RESULTADOS
No presente estudo observou-se que em relação à necessidade de utilização de próteses superiores (tanto parciais como totais), as mulheres (7,4%), em relação aos homens (36,4%), tinham menor probabilidade de permanecerem sem os dentes e essa diferença foi estatisticamente significante (p<0,05). O mesmo acontecendo com as próteses inferiores (mulheres - 42%, homens - 72,7%), onde a diferença foi significativa (p<0,05).(Tabelas I e II)
Notou-se que os pacientes que necessitavam de prótese superior eram mais velhos (mediana= 77 anos) do que aqueles que não possuíam tal necessidade (mediana= 70 anos), sendo essa diferença significante (p<0,05). Entretanto, não houve diferença estatisticamente significante quanto às próteses inferiores (p>0,05).
Ao analisar a necessidade de troca das próteses parcial e total, superior ou inferior, ou seja, aquelas que estariam ocasionando lesão de mucosa e problemas articulares em função do desgaste, constatou-se que 35% dos pacientes precisavam trocar a superior e 17,5% a inferior. No entanto, não houve diferença significativa entre os sexos (p>0,05). 
Ao verificar o sexo e a idade da primeira prótese total, observou-se que 33,8% das mulheres começaram o uso na faixa etária de 21 a 30 anos de idade ao passo que 41,7% dos homens iniciaram o seu uso entre 51 e 60 anos, sendo essa diferença significante (p<0,05).
Quanto à questão do arrependimento dos pacientes que extraíram todos os seus dentes, verificou-se que 47,8% se arrependeram e 52,2% não. Observou-se que a idade, não foi significativa (p>0,05) para as respostas dadas.
É válido lembrar que a maioria das alterações bucais encontradas na presente pesquisa não demarcou qualquer significado estatístico. O gráfico 1 mostra as freqüências das alterações bucais encontradas.
Das alterações ou patologias bucais investigadas, houve uma tendência em se relacionar próteses totais superiores com hiperplasia fibrosa inflamatória por próteses mal adaptadas e candidose oral (p<0,05), sendo que esta última também teve relação com a prótese total inferior com significado estatístico (p<0,05).
Em relação à idade, observou-se que pacientes mais velhos apresentaram mais alterações vasculares (mediana=85,5 anos) na cavidade bucal do que os mais novos (mediana= 70 anos). Essa diferença apresentou significado estatístico (p<0,05). (Tabela III)
 
DISCUSSÃO
A literatura tem mostrado que a partir dos 30 anos o número de extração dentária aumenta substancialmente. A explicação para este fato é de que até esta idade a população procura atendimento, mesmo tendo que enfrentar um sistema privado de prestação de serviços odontológicos, para recuperar as lesões acumuladas desde da infância. Como os problemas não diminuem, sendo os cuidados requeridos cada vez mais dispendiosos, e por outro lado, tendo sido solucionados alguns dos dilemas da juventude (obtenção de emprego e casamento), gradativamente as extrações vão sendo aceitas como solução mais prática e mais econômica tanto para o paciente como para os profissionais. Vale lembrar que estes últimos sempre têm a compensação financeira dos ganhos proporcionados pelas próteses (9). Aliás, os achados da presente pesquisa corroboram com o relatado, tendo em vista que a maioria dos pacientes começou a usar próteses a partir de 30 anos.
Importante é ressaltar que as perdas bio-psico-sociais que ocorrem com o paciente idoso passam por algumas etapas como a de impacto, negação, depressão e aceitação. Corroborando com essa afirmativa, CUERVO (3) aclarou que de uma ou de outra forma o paciente idoso experimentava as etapas mencionadas anteriormente, frente à perda dentária, e que tal fato seguramente desencadearia idéias ou percepções específicas que deveriam ser analisadas.
Esta pesquisa ateve-se a observar a necessidade do uso de próteses (parcial e/ou total) nos pacientes examinados. Os dados demonstraram que na população estudada, 13,6% necessitavam da prótese superior e 48,5% da inferior. Tal necessidade foi menos acentuada no sexo feminino com uma diferença significante (p<0,05). Aliás, CUERVO (3) mostrou que a necessidade de prótese total superior é alta, contrariamente aos achados de ROSA, CASTELLANOS e GOMES PINTO (10) que determinaram uma necessidade mais alta de prótese inferior. Os referidos autores não realizaram uma comparação da necessidade do uso de próteses em relação ao sexo.
Sabe-se que o motivo para a colocação das próteses foram as perdas dentárias que poderiam ter como fatores etiológicos a cárie, a doença periodontal ou o trauma, que por sua vez não foram identificados na presente pesquisa. Porém, observou-se que as mulheres foram as que mais utilizavam próteses totais e as que menos necessitavam de colocação de próteses parciais ou totais. O que levaria a esta acentuada diferença? Primeiramente, talvez o fator psicológico – “coragem”, para decisão de realizar as extrações dentárias, apesar do relato de uma idosa ao afirmar que perdeu os dentes em decorrência de uma briga conjugal. Outro fator seria a vaidade, pois as mulheres valorizam mais a estética quando comparadas aos homens. Poder-se-ia também pensar na função de cuidadora, a qual a mulher é detentora desse saber, que a levaria ao autocuidado. Daí, a reposição das faltas dentárias.
Talvez a arcada superior fosse eleita para colocação de prótese em um primeiro instante, por uma questão de estética, pois a inferior é menos evidente.
O trabalho de CHAGAS, NASCIMENTO e SILVEIRA (2), demonstrou que dos 134 pacientes examinados, apenas 7 não usavam e não necessitavam de qualquer tipo de prótese, demonstrando que 94,7% dos idosos de uma forma ou de outra, apresentavam indicação de utilização de prótese. Entretanto, os resultados do presente estudo afirmaram que em 103 pacientes, 13,6% dos pacientes necessitavam colocar prótese superior (seja por nunca ter usado ou por estar em estado insatisfatório), e 48,5%, inferior. 
Com relação ao sexo, a presente pesquisa avaliou a idade da colocação da 1ª prótese total. Notou-se que as mulheres começaram a utilizá-la com menos idade que os homens. Aliás, essa diferença foi estatisticamente significante (p<0,05). É de se presumir que mais uma vez, o auto cuidado das mulheres levou-as a procurar ajuda o mais rápido possível, mesmo que esse tratamento fosse a colocação de uma prótese total.
A necessidade de troca das próteses parcial e total, superior ou inferior foi relativamente alta corroborando os achados de SIMARD, BRODEUR, KANDELMAN  et al. (11), os quais não levando em consideração o sexo, aclararam que em um estudo com 1822 pacientes, somente 45,7% das próteses superiores e 37,6% das inferiores se encontravam em estado satisfatório. Relataram também que quando o nível sócio-econômico e cultural foram baixos, ocorria maior a incidência de prótese total.
Outra razão importante para justificar a necessidade de colocação e de troca das próteses em estado insatisfatório está descrita nos trabalhos de HOLMES (5), PAPAS, JOSHI, GIUNTA et al. (8) e DEMERVAL & MOJON (4). Estes autores afirmaram que a ausência dos dentes ou o estado precário das próteses podem levar o idoso a uma dieta desbalanceada levando à perda da massa corporal.
Cumpre salientar, que em relação a anamnese, um expressivo número de pacientes examinados relatou a sensação de secura bucal. Entretanto, esses indivíduos eram portadores de alguma doença crônica e faziam uso de fármacos que possuem como um dos efeitos colaterais, a secura da mucosa bucal, fato esse salientado no trabalho de ATKINSOM & WU (1). A diminuição do fluxo salivar pode causar complicações tais como, alterações no paladar, dificuldade durante a mastigação, deglutição e fala, aumento da susceptibilidade às infecções bucais e às cáries dentárias, e dificuldade em retenção das próteses.
Finalmente, vale ressaltar a importância do desenvolvimento de programas de promoção de saúde bucal para a terceira idade, onde através da prevenção das doenças, uma anamnese bem conduzida, um diagnóstico detalhado e um plano de tratamento coerente com a condição geral do paciente idoso favorecerão a sua saúde, levando-o ao um bem estar físico, psíquico e social.
 
CONCLUSÕES
1. No que diz respeito à necessidade de utilização de próteses tanto parciais como totais, verificou-se que as mulheres em relação aos homens tinham a menor probabilidade de permanecerem sem os dentes sendo essa diferença significante;
2. Um percentual relativamente alto de idosos necessitavam trocar suas próteses, não havendo diferença significativa entre os sexos e as idades;
3. Houve relação entre a idade da primeira prótese e o sexo, sendo as mulheres mais precoces neste aspecto;
4. Houve uma tendência de se relacionar próteses totais superiores com hiperplasia inflamatória por próteses mal adaptadas e candidose oral;
5. As alterações vasculares da cavidade bucal foram significantes nos pacientes com a faixa etária maior.
 
AUTORES:
Miriam F. Zaccaro Scelza
Profª Adjunta da Disciplina de Endodontia  da FO/UFF. 
Responsável Disciplina de Odontogeriatria da UFF
Doutora em Endodontia pela FO/USP 
Especialista em Gerontologia  e Geriatria  Interdisciplinar pela UFF.
 
Viviane Pierro – 
1ª Ten BM Dentista do CBMERJ, Especialista em Odontopediatria 
 
 
Pantaleo Scelza- 
Major Dentista do Exército e mestre em Endodontia pela FO/USP
 
Martha Zaccaro –
Major Dentista do CBMERJ, Especialista em Periodontia 
 
Claudia Rodrigues – 
]1ª Ten BM Dentista do CBMERJ, Especialista em Estomatologia 
 
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
1. ATKINSON, J.C. & WU,A.J. Salivary gland dysfunction: causes, symptoms, treatment. J. Am. Dent Assoc., v.125,p.409-416,1994
2. CHAGAS, J.I.; NASCIMENTO, A.;SILVEIRAM.M. Atenção odontológica a idosos na OCM: uma análise epidemiológica. Revista Brasileira de Odontologia., v.57, n.5, set/out., 2000 
3. CUERVO, J. M. Implicaciones psicológicas relacionadas con la pérdida dental y con el uso de prótesis dental en tercera edad Oral – día,  n.13, p.9-16, 1993
4. DEMERVAL, V. ; MOJON, P. Association between self assed masticatory ability, nutitional status, prosthetic status and salivary flow rate in hospitalized elders. Oral Dis. V.5, n.1, p.32-38, Jan. 1999.
5. HOLMES, S Promoting oral health in institutionalized older adults: a nursing  perspective. J.R. Soc. Health, v.118. n.3. p.167-172, Jun. 1998
6. IBGE  IBGE/DPE/DEPIS  1999 a 2020.
7. LOCKER, D., LEAKE, J.L., LEE, J. et al. Utilization of dental services by older adults in four Ontario communities. J. Can. Dent. Assoc, Ottawa, v.57. n.11, p.879-886, Nov/Nov, 1991.    
8. PAPAS, A.S., JOSHI, A., GIUNTA, J. l. et al .Relationship among education, dentale status, and diet in adult. Spec Care Dentist., v.18, n. 1, p.26-32, Jan-Feb, 1998.
9. PINTO, V.G.  Epidemiologia das doenças bucais no Brasil In: ABOPREV-Promoção de Saúde. Bucal 2 ed São Paulo: Artes Médicas, 1999. cap.2, p.29-41.
10.  ROSA, A. G. F.; CASTELLANOS, R.A.; GOMES PINTO,V. Saúde bucal na terceira idade. Revista Gaúcha de Odontologia, Porto Alegre, v.41,n.2, p.97-102, mar/abril, 1993.
11. SIMARD, P. L., BRODEUR, J.M., KANDELMAN, D. et al. Prosthetic status and needs of the elderly in Québec J Cand Dent Assn, v.51, n.1, p.79-81, 1985.
12. WERNER, C.W., SAUNDRES, M.J., PAUNOVICH, E. et al. Odontologia geriátrica  Revista da Faculdade de  Odontologia de Lins v.11, n.1,p.62-69, 1998
 
GRÁFICO
 
Gráfico 1- Achados Bucais da População Pesquisada

Fonte: Centro Gerontológico do Programa interdisciplinar de Geriatria e Gerontologia da UFF

TABELAS
 
Tabela I: Necessidade de utilização de próteses superiores
 
Tabela II: Necessidade de utilização de próteses inferiores
 
Tabela III: Distribuição dos Pacientes com Alterações Vasculares segundo a Faixa Etária