Pontos sobre a saúde bucal na terceira idade

Um estudo, que gerou o artigo “Prevalência da Capacidade Mastigatória Insatisfatória e Fatores Associados em Idosos Brasileiros” publicado este ano nos Cadernos de Saúde Pública, trabalhou com 5.124 idosos de 250 municípios, entre 2002 e 2003, para descobrir quais são as razões da má qualidade da mastigação na terceira idade, bem como seus conseqüentes efeitos na saúde geral dos idosos. O trabalho descobriu que, entre os fatores que podem levar à diminuição da capacidade de mastigação, estão as próteses dentárias inadequadas. Fernando Luiz Brunetti Montenegro, co-autor do livro Odontogeriatria – Noções de Interesse Clínico, de 2002 discorre sobre a importância de próteses bem adaptadas às necessidades específicas da terceira idade, bem como os desafios e motivações de se trabalhar com representantes desta faixa etária. 
Agência Notisa - Por que a escolha de trabalhar com Odontogeriatria?
Fernando Montenegro – Concentrei-me nesta área como uma decorrência de minhas atividades docentes em Prótese Dentária na Universidade Paulista (UNIP) e na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) desde 1981, já que Prótese (mas não só ela) é algo que os idosos precisam muito e vão se tornando mais complexas com o passar dos anos, se tornando “bons”  desafios profissionais, aos quais abarquei com afinco e interesse praticamente toda a minha vida profissional – sou formado há 35 anos, pela F.O. de Bauru, da USP. Idosos compõem realmente um grupo específico (cerca de     14% da população), mas altamente recompensador profissionalmente, quando conseguimos devolvê-los à sua plenitude funcional bucal. Estes pacientes são também uma ótima fonte de engrandecimento pessoal por suas experiências de vida, as quais nos transmitem direta ou indiretamente a  cada consulta.
Agência Notisa - Ao pensar em saúde do idoso, é comum que se lembre da necessidade de controle de fatores que podem levar a doenças cardíacas, derrames, pneumonias, mas é raro que se pense na saúde bucal deste grupo específico. Por que isto acontece? É um cenário que já está mudando? 
Fernando Montenegro - Sim, é um cenário que muda a passos muito claros: por exemplo, da doença periodontal, em 2002, se dizia que “podia ter implicações no controle do diabetes”. Desde 2008 é bem fundamentada cientificamente esta correlação próxima entre estes dois problemas e como o diabetes incide entre os idosos(cerca de 20% deles após os 70 anos) e como é difícil seu controle clínico, mas na parte que cabe à doença periodontal neste controle, podemos ajudá-los bem. O mesmo se tem no controle da flora bacteriana e de base com relação à pneumonia que assola os idosos acamados ou em ambientes hospitalares e que podemos diminuir bem como sua proliferação com uma limpeza mais eficiente da porção posterior da língua (onde a escova de dentes não consegue alcançar) com a indicação dos limpadores do língua, por exemplo. E o  que não dizer dos cirurgiões cardíacos que encontram nos trombos que obliteram os vasos e artérias do coração também bactérias bucais que lá chegaram pela corrente sanguínea de pacientes sem uma condição gengival/periodontal adequada, por bolsas, inflamações e acúmulos de placa bacteriana na boca, único acesso destas bactérias bucais aos vasos . Além disso, existem correlações, em pacientes hipertensos, com problemas renais, com a polifarmácia e uma série de outras de cunho de saúde geral, nas quais o problema bucal também interfere ou sofre a ação de alterações sistêmicas dos pacientes, especialmente em idosos nos quais a reserva funcional para se opor a inflamações e infecções está bem diminuída.
Agência Notisa - A pesquisa citada acima apontou, entre as razões para a baixa capacidade de mastigação de idosos, o uso de próteses parciais ou totais inadequadas. Qual a importância de uma prótese bem adaptada, tendo em vista a saúde do paciente idoso? 
Fernando Montenegro - Esta importante pesquisa dos colegas do Rio Grande do Sul só deixa ainda mais clara a crítica situação bucal dos idosos brasileiros, pois próteses bem adaptadas e funcionando corretamente são fundamentais para mastigar bons alimentos e ingerir bons nutrientes que irão ajudar a manter seu organismo nas melhores condições nutricionais e de saúde geral possível. Mas como conseguir estes nobres objetivos se os dentes naturais doem (por cáries ou mobilidade) ao mastigarem? Se as próteses se soltam ao tentar mastigar alimentos mais consistentes? Se as próteses se soltam porque ingere-se muitos medicamentos que causam xerostomia (uma conseqüência da diminuição do fluxo salivar por excesso de medicamentos nesta fase da vida)? O idoso muda seu padrão alimentar para tentar suplantar estas “falhas” nas próteses, mas isto pode (e vai muitas vezes) causar  anemias nutricionais graves, justo numa fase da vida em que ele deveria estar ingerindo os melhores alimentos possíveis. E o pior é que ele não percebe o que está ocorrendo e só vai descobrir quando dá entrada, bastante combalido, numa unidade hospitalar. Não basta ter próteses na cavidade bucal: elas precisam estar bem adaptadas aos tecidos de suporte (dentes e mucosas) para exercerem suas funções adequadamente. Mas o que se observa é que colocaram as próteses há 20-30 anos atrás e nunca mais procuraram um cirurgião dentista para controlar como estão funcionando (ou não funcionando mais). Apesar de mais notável na população idosa mais pobre, isto ocorre em todos os perfis econômicos de idosos, infelizmente.
Agência Notisa - Por muitos anos, foi comum que se indicasse a extração de um ou mais dentes para evitar “problemas no futuro”. Qual a importância de se manter a dentição original? 
Fernando Montenegro - A dentição original é a que dá a maior eficiência mastigatória se estiver bem cuidada e nas suas melhores condições de funcionamento. Perder um dente natural é perder eficiência mastigatória e,como já discutido, qualidade de vida em última instância. A grande função da Odontogeriatria é cuidar dos dentes naturais dos idosos, no maior numero de áreas clínicas possíveis para preservá-los na cavidade bucal para servirem de suportes para próteses mais eficientes que as “dentaduras”, que poderiam ser as próteses parciais removíveis, por exemplo. Esta idéia errada de se extrair os dentes na meia idade (ou em qualquer idade) para se prevenir problemas no futuro é totalmente infundada cientificamente e nós dentistas não aprendemos desta forma nas Escolas e sim somos ensinados a preservar os dentes e estruturas bucais correlatas. Este conceito é popular entre os leigos, mas não é algo cientifico ou adequado clinicamente. Quando o paciente é jovem muitas vezes troca um dente por um atestado para justificar sua falta por ter ido num jogo de futebol no dia anterior; pior ainda do que isto é quando um dentista se curva a um pedido horrível destes em nome de preservar seu emprego. Por isto, campanhas de conscientização popular deveriam ser feitas por todos os envolvidos com a saúde bucal.
Agência Notisa - Quais as alternativas para idosos que hoje sofrem de edentulismo devido a este antigo padrão?
Fernando Montenegro - O bom é saber que o edentulismo (a ausência total de dentes) está diminuindo em todo o mundo civilizado e oxalá chegue com força esta diminuição no nosso país. Continuamos tendo as opções reabilitadoras tradicionais de próteses totais (as ”dentaduras”), as próteses removíveis (as “pontes móveis”) e já há alguns anos os implantes aparecem como excelente opção reabilitadora da capacidade mastigatória de nossos pacientes. Seu custo ainda não permite sua aplicação em termos comunitários, mas estão diminuindo bem e os planos de financiamento de tratamentos por agentes financeiros permitem que uma maior parte da população comece a ter acesso a esta opção protética. Mas sempre preservando os dentes naturais (quando estiverem presentes) e somando, por exemplo, os implantes para se conseguir maior eficiência mastigatória. Tudo com bom senso clínico, pois as opções tradicionais ainda se aplicam a uma grande quantidade de pacientes. 
Agência Notisa - Quais são os fatores que devem ser levados em conta quando da escolha de uma prótese para um paciente da terceira idade? Que condições tornam o tratamento de um idoso mais delicado do que o de um paciente mais jovem?
Fernando Montenegro - Em primeiro lugar, sua real capacidade de se adaptar a elas hoje, tomando por base sua condição física atual. Depois, a condição de sua saúde geral para poder receber as intervenções clínicas para realizá-las, por exemplo, fazer cirurgias de remoção de dentes quebrados e perdidos, além de sua capacidade de cicatrização, de responder frente às possibilidades de hemorragias, de sua condição cardíaca para poder fazer a cirurgia; seu controle efetivo da glicemia ou de sua pressão arterial; da fundamental colaboração do paciente no pós-operatório, de ter quem possa trazê-lo ao consultório ou se estamos atendendo-o em seu domicilio, dos medicamentos que ingere e de como podem interferir em nossas ações cirúrgicas e/ou clínicas, da participação efetiva de seu médico clínico ou geriatra nos tratamentos a serem propostos; ou seja, uma grande gama de opções que só um profissional bem treinado, pode levar adiante com o sucesso esperado. Mas muito mais do que atitudes técnicas, o profissional deve estar capacitado a dialogar e se interar realmente com aquele ser humano que está em seu consultório, de uma forma muito mais ampla que só a “parte odontológica” deles, com carinho, conhecimento, interesse e vontade real de ajudar a seu semelhante. Mas isto já seria assunto para uma outra nova e longa entrevista....
 
FERNANDO LUIZ BRUNETTI MONTENEGRO- Mestre e Doutor pela FOUSP
 
MARIANNA SALLES FALCÃO- Jornalista da Agência Notisa
 
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