Odontologia domiciliar ao idoso frágil: a importância da Odontogeriatria

"Como Publicado na Rev Portal de Divulgação (ISSN 2178-3454), 2014; 42(5):6-14."

Introdução

Segundo dados do IBGE, a faixa etária de pessoas com sessenta anos ou mais, em 1960, era responsável por 4,8% do total da população brasileira. Em 1980, esse número passou para 6,2% e em 1999 atingiu 8,7%. Mantidas as tendências atuais, a projeção entre 2020 e 2025 é de que a proporção de idosos no país esteja em torno de 15%.1,2,5,6,14,15,24

A Política Nacional de Saúde do Idoso enfatiza que o atendimento na atenção básica domiciliar tem como objetivo promover a integração com os demais níveis de atenção, e garantir a integralidade por meio da aplicação de modalidades que atendam as necessidades dos idosos, a partir de condutas multidisciplinares, sempre que possível, proporcionando manutenção geral de sua saúde. 1,3

O Estatuto do Idoso direciona a atenção domiciliar a aquele com deficiência ou com limitações incapacitantes ao atendimento especializado, de acordo com os termos da lei.12

Diante dessas projeções populacionais do Brasil, surge a necessidade da existência

de cirurgiões-dentistas capacitados em atuar em conjunto com uma equipe de saúde multidisciplinar e prestar atendimento adequado ao idoso. 29

Para a execução dessa prática é necessária uma diferenciação e capacitação profissional, bem como da equipe de saúde de maneira geral, com o objetivo de avaliar o nível de dependência do idoso, seus limites, suas potencialidades e, principalmente, identificando as reais necessidades para que seja oferecido um correto prognóstico. 5,16

O atendimento domiciliar (home care) consiste em uma mudança de paradigma para o cirurgião-dentista que sempre atuou em consultório, e passa a ter uma diferenciação ao ter que se adaptar ao contexto do paciente. 16,23

Esse tipo de atendimento em saúde promove um maior conforto e se gurança ao idoso e à sua família, a partir de um cuidado humanizado, ético e interdisciplinar. 9,14,15

O presente trabalho tem como objetivo abordar a importância do odontogeriatra e a sua inserção na equipe multi-interdisciplinar, a fim de contribuir, a partir de um contexto gerontológico, na saúde desses idosos frágeis.

Revisão de literatura e discussão

A Odontogeriatria é definida como a especialidade da Odontologia que enfatiza

o cuidado com a saúde bucal da população idosa, nos atendimentos preventivos, curativos e reabilitadores de pacientes idosos a partir de um planejamento multi-interdisciplinar e avaliação minuciosa das condições sistêmicas, psicológicas, sociais, éticas, religiosas, físicas, financeiras e familiares de idosos independentes, semi e dependentes.4,8,17,31

A formação do futuro e cirurgião-dentista interessado nessa especialidade é pouco focada devido a não existência dessa disciplina nos cursos de graduação na maioria das universidades brasileiras, bem como poucos cursos de pós-graduação especialização).28,32

De acordo com Brunetti e Montenegro (2002), as atividades preventivas e curativas para os pacientes idosos, incapacitados física e mentalmente, no consultório odontológico são frequentemente negligenciadas, condição que permite que sejam indevidamente atendidas por profissionais que não possuem um conhecimento técnico-clínico e específico de manejo em saúde a esse grupo populacional, especificamente.3,25

A prática do atendimento domiciliar (home care) ao idoso tem como objetivo: contribuir para a otimização dos leitos hospitalares e do atendimento ambulatorial, de maneira a reintegrar o paciente em seu núcleo familiar e de apoio, além de contribuir na promoção da assistência humanizada e integral, por meio de uma maior aproximação da equipe de saúde com a família.

Condições que permitem maior estímulo e participação do paciente idoso frágil e de seus familiares no tratamento, a partir de planejamentos de educação em saúde e prevenção.14,16

Esse tipo de atendimento insere-se no modelo gerontológico que visa, na medida do possível, reinserir o idoso na comunidade, preservando ao máximo sua autonomia e recuperação da independência funcional a fim de promover o bem estar e melhoria da qualidade de vida, principal mente em pacientes idosos comprometidos até os seus últimos momentos de vida

(Figura 1).10,15,18

As estruturas bucais e do sistema estomatognático sofrem a ação do processo de envelhecimento, havendo necessidade de interpretação e conhecimento dessas alterações, a fim de promover diagnósticos precisos e compatíveis ao estado de saúde em que se encontra o idoso em domicílio.1

A saúde bucal, parte do contexto de saúde do ser humano, é fundamental para a ualidade de vida do idoso, o que justifica a necessidade da manutenção odontológica em domicílio, como parte integrante da saúde geral desse paciente semi e dependente, contribuindo para uma correta realização das suas atividades diárias.13,16

São de extrema importância o respeito ético e planejamento familiar nas condutas odontológicas em domicílio, principalmente relacionadas às responsabilidades de atividades profissionais e concordância.23

A assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, preenchimento de uma ficha clínica de condutas diárias e um planejamento adequado do tratamento são considerações essenciais para o sucesso e segurança do odontogeriatra.4,16

As áreas de atenção odontológica em domicílio (home care) estão relacionadas à prevenção de doenças bucais, prótese (reabilitação), periodontia, estomatologia (lesões bucais) e em casos específicos, exodontias (extrações dentárias) para remoção de focos de infecção, processos inflamatórios e de sintomatologia dolorosa, a partir de um planejamento multi-interdisciplinar.3,5,7

Medidas preventivas, de remoção mecânica da placa bacteriana como escovação dentária, correta higienização das próteses e eliminação de saburra lingual com o uso de limpadores de língua, além do uso de antissépticos eficazes, como o digluconato de clorexidina a 0,12% sob orientações podem contribuir para a adequação do meio bucal desse idoso semi e dependente no âmbito domicilia

 (Figuras 2 e 3). 13,16,26

As instruções de manutenção de higiene bucal devem ser enfatizadas aos cuidadores e familiares desses idosos, pois, em muitos casos, serão responsáveis por essas condutas de promoção de saúde bucal e cuidados pessoais, devido à perda de capacitação individual, coordenação motora, cognição e discernimento da importância dessas ações como fatores significantes de saúde.7,11,15,16

É necessário o conhecimento de toda a equipe gerontológica e familiares que assistem o idoso em domicílio das possíveis enfermidades da cavidade bucal que podem interferir diretamente na sua saúde sistêmica, sendo necessário um planejamento em saúde individualizado e que tenha como objetivo contribuir para o não aparecimento ou diminuição dos efeitos a diversos desses problemas de saúde.16,19, 24

Nessas condições específicas de fragilidade do idoso, é de extrema importância ações de intervenção odontológica tanto de caráter preventivo como curativo, e que foque sempre no bem estar geral do indivíduo senil. 27, 32

O odontogeriatra capacitado deve fazer parte da equipe multidisciplinar no atendimento domiciliar ao idoso dependente a fim de contribuir na qualidade de vida desse paciente e acesso aos serviços dignos de saúde nessa fase da vida.3,5,8,13,15,16,18,24

Conclusão

Conclui-se que o tratamento odontológico domiciliar preventivo e curativo é uma alternativa do odontogeriatra capacitado na contribuição da melhora do estado geral do idoso dependente a partir da necessidade desse específico tipo de serviço gerontológico. Surge a necessidade da efetiva participação e capacitação do cirurgião-dentista como parte integrante desse contexto de atendimento domiciliar (home care).

Figura 1- Adaptação profissional no atendimento odontológico -a prática em saúde bucal, muitas vezes, acontece em condições adversas de trabalho e ergonomia. Necessidade de um planejamento em saúde bucal que vise a mínima intervenção.

Figura 2- Extremamente necessária avaliação constante da higienização das próteses dentárias de pacientes em domicílio, pois devido à falta de políticas e medidas corretas de higienização, as mesmas podem servir como reservatórios microbianos e favorecer a doenças oportunistas como a candidose.

Figura 3 -A utilização de limpadores linguais contribuem para a eliminação da saburra lingual, considerada como reservatório microbiano de bactérias gram negativas associadas à pneumonia aspirativa -Elevadas taxas de internações de idosos domiciliares.

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Gabriela Costa Marques -Cirurgiã-dentista graduada pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Aluna do curso de Especialização em Implantodontia –IBPG, Brasília-DF. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Fernando Luiz Brunetti Montenegro –Mestre e Doutor pela USP -São Paulo;Coordenador do curso de especialização em Odontogeriatria na ABENO –SP; Autor do Livro: Odontogeriatria - uma visão gerontológica, Editora Elsevier, 2013. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

m.br

Luciana Freitas Bezerra -Professora do curso de Odontologia da UCB -Prótese; Mestre em Ciências da Saúde -UnB, Doutoranda em Ciências Genômicas e Biotecnologia –UCB.Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Eric Jacomino Franco –Diretor e Professor do curso de Odontologia da UCB; Mestre em Odontologia (Periodontia) –USP (Bauru); Doutor em Ciências Genômicas e Biotecnologia –UCB. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Aline Úrsula Rocha Fernandes -Professora Adjunta do Curso de Odontologia da Universidade de Brasília -UnB; Mestre e Doutora em Odontologia -UNESP. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Alexandre Franco Miranda -Professor do curso de Odontologia da UCB -Odontogeriatria; Especialista em Gerontologia (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG); Mestre e Doutorando em Ciências da Saúde –UnB. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

AUTORES:

Gabriela Costa Marques

Fernando Luiz Brunetti Montenegro

Luciana Freitas Bezerra

Eric Jacomino Franco

Aline Úrsula Rocha Fernandes

Alexandre Franco Miranda